"A terra atrai irresistivelmente o homem, arrebatando-o na própria correnteza dos rios que, do Iguaçu ao Tietê, traçando originalíssima rede hidrográfica, começa da costa para os sertões, como se nascessem nos mares e canalizassem as suas energias eternas para os recessos das matas opulentas.
(...)
E por mais inexperto que seja o observador - ao deixar as perspectivas majestosas que se desdobram ao sul, trocando-as pelos cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente de calcar o fundo recém sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens."
Li que percepção requer envolvimento. Buscamos sempre uma memória sensorial para tudo, mesmo sem a certeza de estarmos em sonho ou despertos. Quero poder um monte de coisas. Ter voz, ouvidos e movimentos treinados. Sentir meu dedo empurrar o martelo na corda do piano.
Quero podermos um monte de coisas. Termos voz, ouvidos e movimentos treinados. Sentirmos nossos dedos empurrarem o martelo na corda do piano... a sensação comum que permeia, individualmente, cada um dos fios.
quando nascemos não somos únicos, somos?
agora estou só.
só dos tudos. e tudo me parece tão pouco. o tempo colocou-me um nó na garganta, o chamemos assim. poupo-lhe dos lamentos, mas derramo, transbordo pelas beiradas.
estou assim quieto, imóvel para que eu mesmo não perceba todo esse cansaço que esses dias me causaram. em outro momento, talvez longe daqui, ví-me carregando uma criança já grande no colo, descíamos uma longa escada e quando embaixo chegávamos, a criança era eu. ela chorava. derretia e voltava a ser água.

Deixo tudo embaixo da cama, escondido e pegando pó.
O pó me dá alergia. Assim como tinta amarela, tinner, suor, sol, melão e aflição.
É só aflitar-me e empipoco-me.
Coceiras, cabeleiras, penteadeiras, fofoqueiras de plantão e de plantinha.
Tudo ecoa, fora e dentro. Bem dentro. Bem lá dentro.
Errei. Errei em ser eu mesma, em revelar minhas máscaras já caídas no chão.
Em revelar minhas lágrimas mais ardidas.
Cai coração, cai!
Talvez eu seja uma cretina idiota.
Mas sou tua.
O tremor não me deixa escrever mais nada.
Confidências confidenciais são suas ofensas irrepetíveis.
No início, tudo é escuro, desde o parto até o pranto.
Hoje quero respostas mais precisas e preciosas.
A gente se confunde e se perde sozinho...
fiquemos sempre presos a esses absurdos que insistem em nos perseguir...
seremos objetos de riso e humilhações...
mas seremos ao menos cientes da ridícula situação que é:
não nos encontrarmos em nós mesmos...
Alguns sapos nós engolimos e outros deixamos escapar...
alguma coisa há de ficar para contar a história,
algo há de permanecer intacto.
que eu não minta quando escrever.
carta-resposta às páginas soltas de talissa.
ao chorar, debruço-me sobre os meus joelhos e encosto os lábios na pele que é minha. repouso os olhos, depois as mãos sobre o chão. procuro deitar lentamente tentando não me apegar dessa vez.
não te vejo por hora, mas te leio. organizo as letras do alfabeto e identifico as palavras, lentamente lhe reconheço como um texto-água turvo, nebuloso e frio, não que suas ordenadas palavras me esfriem, contudo há a percepção em mim do que me falta.
quantas vezes voltamos para ele? ou para eles? de tempos em tempos esvazio o coração-casa esperando que ele volte.
mas muita calma, coração
que tudo há de ficar bem
e quando não - Olhos Grandes,
desminta, aos poucos, para você mesma, os anos em que amou o imaginário.
respire lentamente e veja as grandes concretudes: a casa anoitecendo, os móveis da sala, os vazos com as pimentas, as flores, o quarto grande, a cama larga e você mesma deitada de lado.
acho que ficava ao lado do meu pai nas discussões, porque não me agradava ter que concordar com as opiniões passionais de minha mãe, já que eu, por outro lado, sempre afrontei quem é muito feminino. durante muito tempo recusei poesia escrita por mulheres, quem diria... acho que queria ter em mim a força masculina,por isso procurava me interessar por augusto dos anjos, política, futebol. achava que se eu tivesse algo que os homens tem na cabeça,nunca seria abandonada por um. uma linha de raciocínio que só podia existir dentro de uma cabeça pequena de criança. ou de uma cabeça pequena de gente grande também. raciocínio abandonado com o fim do primeiro namoro. e muitos livros escritos por mulheres colorindo minha estante. sentimentos femininos sim. nunca feministas. não tenho mais medo de ser abandonada por meu pai.

carta piquenesca nº 5

lavadeira 1 - Ai,ai.
Lavadeira 2 - Pois é.
Lavadeira 3 - Que fome.
o que vem depois da pergunta: o que eu vou ser quando eu crescer?
esse aqui é o meu amigo,o ponto de exclamação: !
o meu pai é alto e magro,e não fala mais comigo.
o meu avô é gordo e baixo,e não é mais meu amigo.
eu me chamo chiquinho, e acho que não quero ter filhos.
a idéia do fragmento é cada vez mais forte na minha cabeça.
não quero contar grandes estórias, também não quero escrevê-las.
uma estória pode ter grandiosidade sem ser extensa.
onde pararemos?
pararemos?
Lavadeira 3 - Você podia me passar a receita?
(pausa longa)
Lavadeira 1 - Não minha filha,eu não podia.
"Quantos seres sou eu para buscar sempre do outro ser que me habita as realidades das contradições? Quantas alegrias e dores meu corpo se abrindo como uma gigantesca couve-flor ofereceu ao outro ser que está secreto dentro de meu eu? Dentro de minha barriga mora um pássaro, dentro do meu peito, um leão. Este passeia pra lá e pra cá incessantemente. A ave grasna, esperneia e é sacrificada. O ovo continua a envolvê-la, como mortalha, mas já é o começo do outro pássaro que nasce imediatamente após a morte. Nem chega a haver intervalo. É o festim da vida e da morte entrelaçadas."
trecho selecionado por Suely Rolnik de:
Lygia Clark, carta a Mário Pedrosa, 1967; in Sonia Lins, Artes, 1996.
tetralogia i impermeabilidade
Alô tia Eda!
Tenho medo de escrever demais. Mas o Helder e o Danilo disseram que apagam se estiver muito ruim. Acho que nao sei mais ser poesia e agora só escrevo sem o tio porque na Argentina ele nao existe.
Gostaria da colaboraçao de vocês para desenhar melhor as linhas de alguns de meus conceitos, afim de construir performances e obras apatir deles.
É assunto velho, mas ainda me acompanha. Sobre a tetralogia i. E o primeiro conceito é impermeabilidade. Para mim tem muito a ver com conter o fluxo, segurar ao maximo o natural. A respiraçao, o tempo,etc. Penso também em indiferança que se opoe aos demais sentimentos, é como nao ser atigindo, é passar pelo processo ileso. Um material que sintetiza muito este conceito é o vidro. Gostaria da ajuda de vocês para saber o que pensam sobre, sugestao de materiais,cituaçoes,enfim o que puderem.
"O meu pai é alto e magro"
molloy, beckett.




